segunda-feira, 1 de outubro de 2018

DOURO - AS GERAÇÕES VÃO PASSANDO MAS A BELEZA DESTAS TERRAS PERMANECE





Deixámos para trás aquelas paisagens que enchem o olhar de beleza e o coração de saudade de um tempo que ficará para sempre gravado na nossa memória. É uma subida ingreme e esforçada para aquele sonho de menino. Era ali que um dia desejava vir a construir uma casa. O tempo passou e o sonho tornou-se realidade. É ainda a sua casa de férias... a casa do Douro. Uma casa rústica e simples com uma paisagem deslumbrante.




Daqui, do lado a sul do rio, vislumbra-se um Marão alcantilado, imponente e belo recortado no horizonte da margem direita em direcção ao Norte… Ao fundo, no vale, vêem-se o rio e os comboios que vão passando espaçadamente junto ao rio Douro ligando a Régua ao Porto, bem como os barcos que trazem turistas para visitar este mundo da lavoura e, sobretudo, das cerejeiras, oliveiras, castanheiros e vinhedos. Vinhedos esses bem tratados  que desfilam em terras de acesso difícil onde o Homem reforça a sua presença nos socalcos arrancados às encostas dos montes duma forma geométrica aparentemente impossível. 




As lembranças de nós, dos avós, pais, tios e primos que por estas terras andaram em alturas de férias de outros tempos, vêm-nos à memória. Viemos meninos, convivemos com as gentes da terra que eram gentes hospitaleiras. Gentes que se conheciam todas. Gentes que tinham as suas rotinas e os seus trabalhos interrompidos de bom grado por quem vinha de passagem e férias saborear o que de bom a terra tem para dar. Gentes que tinham o tempo todo do mundo, para além das exigências dos trabalhos do campo. Gentes que se juntavam no átrio da pequena capela à beira da estrada nos momentos de lazer ou nos Domingos soalheiros para ver quem passava e dar dois dedos de conversa. Muitos já morreram, muitos partiram para outras paragens, poucos ficaram.





A estrada continua perigosa com as suas curvas e contra curvas roubadas aos montes e as suas bermas estreitas. Mas, a velocidade e descontração dos automobilistas que se aventuram por ela, não impedem ainda hoje as gentes da terra de se deslocarem a pé de lugar para lugar, tal como nós o fazíamos de cajado na mão para se visitar o Avô em Covelas, a Enxertada, ou S. João de Fontoura, ou a prima Aura no Estremadouro, ou a venda da Massorra…, enquanto se apanhavam as gordas e negras amoras silvestres que pendiam das silvas que ladeavam a estrada ou nos refrescávamos na fonte de águas puras que, então, se podiam beber. Ao longo da estrada, muitas casas decrépitas deixam adivinhar outros tempos de vida e movimento naqueles montes que se vão sucedendo uns aos outros. No entanto, lugares como as Castanheiras ou Rendufe permanecem na mesma, com as suas casas senhoriais bem preservadas, debruçadas sobre os montes que descem para o vale e ladeando a estrada principal por onde se passa. São casas de granito, paredes caiadas, muros de pedra, portões de ferro trabalhado que parecem seguras do seu passado e esperançadas no seu futuro. Para além de que novas vinhas e novas casas vão aparecendo, estas ainda sem história mas projecto de novas vidas que aqui se irão enraizar, ainda que seja como casas de campo, de fim de semana ou de fim de uma vida de trabalho para quem de longe vem de emigrado.





O horizonte é salpicado de casario que, ao estar iluminado à noite, mais se assemelha a um presépio. Ao entardecer, o Sol despede-se como uma mancha vermelha de fogo que encima o cume de montes e serras, deixando atrás de si um manto de neblina e cinza que se vai tornado negro enquanto que os pontos de luz vão aparecendo dispersos revelando a presença humana em locais que de outra forma a vista não alcançaria.




Lá no fundo, o sino da Igreja da Senhora da Guia, em S. João de Fontoura, faz-se ouvir por vales e montes. Ecoa no manso da tarde e acentua o sentimento nostálgico de tranquilidade e bem estar de quem se senta na varanda da casa, para saborear os últimos momentos de um espaço que hoje já vai fazendo parte da nossa história de família. Mesmo que nós tenhamos vindo só para gozo de férias ao longo dos anos, somos mais uns a partir desta terra generosa com alguma saudade dos tempos que ali vivemos. Novas gentes virão que, como nós, poderão vir a saborear a beleza da paisagem e a viver uma nova história que atravesse gerações nesta acidentada e bonita terra do norte de Portugal que é banhada pelo Rio Douro.






(Fotografias tiradas em Setembro de 2018)




Sem comentários:

Enviar um comentário