domingo, 14 de outubro de 2018

NA CIDADE OU NO CAMPO - O PASSADO ESCRITO NA PEDRA





DOURO - Outono de 2018



REBELVA/CASCAIS - "MENSAGEIROS DA PAZ, INDIFERENÇA E INQUIETUDE…" Foi um "post" que escrevi sete anos atrás e que tão bem se aplica à situação que hoje vivemos quando fechamos a porta de um tempo que não volta mais. Resolvi repescá-lo  agora que, ao passar no Douro, encontrámos também casas abandonadas que tiveram os seus tempos áureos que hoje só se podem adivinhar… Não vimos pombos encarrapitados nos seus muros ou telhados, mas janelas emparedadas, portas fechadas e sinais de um abandono nostálgico sobre uma paisagem tão bela como é a das margens do Rio Douro… Aqui, na cidade, como lá no campo, fica a marca de um passado que já só poderia ser contado pelas paredes de pedra que o fecham ainda.

Faz sete anos, na Rebelva/Carcavelos, resolvi parar e fotografar as pombas que saltitavam sobre a casa em ruinas que ainda hoje lá está. Passo por lá no meu dia a dia, mas naquele dia estacionei o carro, peguei na máquina e carreguei no botão… Olhar aquelas paredes de pedra fez-me parar no tempo por uns instantes, fez-me olhar através delas. O mesmo sentimento aqui no Douro ou em Cascais e em tantos outros lugares...



"Hoje, são as suas asas cinzentas, as suas cabecitas curiosas, os seus bicos ternurentos e irrequietos que ocupam lugares que um dia foram de homens e mulheres "bons" ou "maus"; "apaixonados" ou "indiferentes"; crentes numa vida além da morte ou em que tudo o que se tem é o momento presente.



O tempo deu-lhes asas. Deixou-as voar. Agora viajam sobre o tempo. Saltitam entre as telhas, sobre as pedras que o tempo descarnou. Arrulhando em namoros descomprometidos, chamam a atenção de quem passa para o tempo de outros tempos.



Quem aqui viveu? Quem aqui nasceu? Quem aqui morreu? Que histórias de vida guardam estas pedras que teimam em resistir, estes caixilhos desgastados, estas paredes desbotadas e parcialmente desfeitas?!…




Paredes que guardam histórias. Histórias de vidas vazias, cheias de nada, sem objectivos traçados, simplesmente lançadas à passagem do tempo.

Histórias de gentes valorosas que se empenharam em grandes ou pequenas coisas, "certas" ou "erradas"... as possíveis do e no tempo que foi o seu.

Histórias que ficaram perdidas no tempo ou retidas na memória de quem ainda as conhece. Histórias de quem imagina o que poderá ter existido por trás das suas ruinas.

A "Desintegração da Persistência da Memória", de Dalí, foi um quadro que dentro de todas as limitações procurei reproduzir a pedido insistente do meu filho. "Desintegrar" na tela um muro pedra a pedra não me foi fácil. Precisei da mão da minha mestra. Levei tempo e paciência…

Mas, aqui, fi-lo com a rapidez de um "clic". Captei integralmente isso mesmo __ a "Desintegração da Persistência da Memória" __ Tudo tem um fim e, enquanto alguma coisa resta, fica a marca da sua passagem por insípida ou breve que seja.




Está aqui a importância de HOJE: "Hoje" o tempo que nos resta para termos a lembrança de nós e dos que vivem connosco o nosso tempo e a nossa memória… Até porque, bem ou mal, somos nós também quem faz o tempo presente!"


(Rebelva - Fotografias tiradas em Junho 2011)





RECORDAR É VIVER




A casa dos Avós


Subimos aqueles degraus com um corrimão já desgastado pelo tempo para uma última estadia… Estivemos com umas primas que já há que tempos não víamos e tinham em comum connosco tantas vivências de outros tempos… Abrimos os álbuns com algumas das fotografias já um pouco amarelecidas… Recordámos lugares, tempos vividos e sentimentos,  pessoas e episódios que passaram por nós e pelas nossas vidas e que para sempre farão parte de nós. Poderemos esquecer pequenas coisas da vida do dia a dia, (onde deixei os óculos?, o telemóvel?, que vinha cá fazer?), mas aquelas lembranças ficarão para sempre gravadas no fundo das nossas memórias.

Na casa dos Avós, remexemos e escolhemos as coisas que por alguma razão nos eram caras. Levámo-las connosco. O resto ficou para trás. Recordar é viver, é viver tudo o que foi bom outra vez… Voltar aos anos em que eramos jovens e estávamos na flor da vida, voltar aos tempos dos nossos avós, dos nossos pais ainda jovens, dos nossos filhos meninos.


Viajamos no tempo, no espaço, nos acontecimentos quando nos encontramos depois de algum tempo, folheamos um álbum de fotografias ou retornamos àqueles lugares da nossa infância, meninice ou juventude onde já fomos felizes, para voltarmos mais sólidos e mais empenhados no nosso presente, por bom ou mau que nos pareça. Empenho esse que nos permite aceitar com mais ânimo e alegria o nosso futuro por mais ou menos longo que ele seja.  






sábado, 13 de outubro de 2018

DIPLOMA





Quantos momentos há em que não sabemos qual o caminho certo, vacilando entre o que fazer e o não fazer, o arriscar e o recuar. Por vezes, decisões bem difíceis na vida. Mas quando, já sem nos lembrarmos dele, encontramos um Diploma como este (independentemente de poder estar enfatizado pelos sentimentos de um adolescente, nessa fase da vida em que tudo é superlativo), então, sabemos que, por muito que tenhamos errado, se calhar, fizemos a coisa certa, enquanto possível.




Foi uma porta que se fechou também para mim, cujas chaves já não servem a não a ser as da memória e de um coração que ainda bate e as partilha com uma família de professores como os Avós, Tios e Primos. Hoje, vamos de carro que nos leva à porta da escola, naqueles tempos subia-se os montes a cavalo como a Prima Aura que ia de lado sentada na sua montada até ao seu destino ainda mais acima no monte, fizesse sol, chuva ou neve, para dar aulas a alunos que seguiam a pé descalços ou calçados com tamancos… 



Desisti a meio do caminho, mas eles mantiveram até ao fim os seus propósitos numa dádiva dos seus saberes e da sua dedicação a uma profissão que pode ser dura mas tanto de belo tem para dar e que fica gravada na memória dos alunos que foram alvo do seu interesse e carinho. A eles dedico este Diploma e a todos(as) amigos(as) que ainda hoje se mantém no activo, não precisando de escalar a montanha a cavalo, ou de lidar com alunos de pés descalços, é certo, mas que, por vezes, estão descalços de tantas outras coisas como de afectos, atenção e de bens que nem sempre são materiais.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

DOURO - POEMA A OURO LAVRADO





Douro - Outono de 2018




"Numa era em que as palavras são só palavras e os valores estão desgastados
(Ainda) há uma voz solta do peito
Que (me) faz crer que os sonhos em poemas idealizados (…)" (*)


(…) podem ser a palavra que falta para nos fazer retornar de novo à vida por curta que ela possa vir a ser. Às vezes, uma palavra, por simples que seja, pode-nos ajudar a encarar a realidade e tirar partido do tempo que resta. Quem sabe se o pequenino excerto que retirei deste poema que adorei não tenha esse poder sobre quem hoje o leu e parte do Douro para não mais voltar. Douro esse que um dia também foi seu lar, seu destino ou sítio para relaxar.


"Oh! Douro-Poema, Homem-Menino
Se soubesses quanta vida me dás!
Em ti, nenhum sonho é pequenino
 Minha alma jamais olha p'ra trás!"




(Foto tirada  pelo V. em Setembro de 2018)



POEMA A DOIS ESCRITO, POEMA A OURO LAVRADO
(diálogos da Terra e do Rio)


"Te contemplo com o olhar de Menina-Mulher
Adivinho o coração aroma-de-mel
E a água cristalina do teu ventre, genuíno Ser
Douro és mais que poema, és anel!

Reflito-te, em adoração de Homem-Menino,
E do fundo dos meus olhos cor-de-ouro
Sorrio-te, como infante pequenino,
Que no teu colo vem guardar o seu tesouro.

Suavemente, enfeito-te a meu gosto
Dos lábios sumarentos provo o beijo
Cachos de uva são o saboroso mosto
Enternecendo o calor do nosso ensejo!

Ternamente te enlaço, Terra amada,
Como jóia que mereces por direito
E no estio, nossa boda é festejada
Pelas vinhas que tu bordaste a preceito…

Oh! Douro-Poema, Homem.Menino
Que estranha vontade esta de te tocar!
Porque serás sempre o melhor destino?
E o único a quem tenho amor p'ra dar?

Oh, Poema-Douro, Menina-Mulher,
Que prazer eu tenho em te adornar!
Para te ver, quando o Inverno vier,
Despir , e no meu leito aconchegar!

Oh! Douro-Poema, Homem-Menino
Se soubesses quanta vida me dás!
Em ti, nenhum sonho é pequenino
Minha alma jamais olha p'ra trás!

Oh, Douro-Poema, Mulher-Menina,
Quanta da minha história se faz tua!
Ao mundo, a Natureza aqui ensina
Que a beleza o trabalho apazigua!!" (**)


( (*) Poema de Teresa Teixeira  (**) em  parceria  com Jéssica Neves )




DOURO - DESTINO DE FÉRIAS DE VERÃO / UMA AMÁLGAMA DE LEMBRANÇAS E EMOÇÕES




(Douro- 2018)

Ao dar a curva, temos uma vista privilegiada sobre aquele lugar que continua aninhado no monte, igual a si como há dezenas de anos atrás. Certamente mais velho e mais deserto das gentes que lá moravam, mas isso não vemos daqui de longe na estrada. É um lugar igual a tantos outros que se vão encontrando nas curvas e contracurvas de uma estrada que não deixa de vista o Rio Douro.

A casa do Avô era um destino de férias de eleição. Tanta coisa ficou gravada na nossa memória!... As histórias de uma família que aqui ganhou raízes durante gerações. Para nós era a alegria de sermos bem recebidos por um avô benevolente e falador que tinha sempre coisas para contar enquanto, recostado na sua cadeira, ia enrolando a mortalha do seu cigarro sobre a carreirinha de tabaco, que dispunha cuidadosamente dentro dela, e o fechava depois de passar a língua na borda da folha de papel, em gestos tranquilos e de prazer como parecia ser o seu sentimento quando nos recebia de visita. Tudo era diferente dos ritmos e sentires da cidade. A apanha de fruta directamente das árvores ou das uvas das videiras. A frescura da água da fonte que alegremente íamos buscar num cântaro para o almoço. O cheirinho inesquecível a maçã no armazém escurecido onde se guardavam, amontoadas no chão feito de tábuas ou espalhadas em tabuleiros, as batatas e as frutas da época e que,  para nós, era mais um local de aventuras, para além dos campos em volta da povoação. O fresco da loja onde se guardavam as pipas de vinho em casca de carvalho. O chiado das rodas do carro de bois que penosamente subia a ladeira calçada a pedra, no meio da povoação, e que passava mesmo  ao fundo das escadas que desciam do varandim da porta da casa. O cantar dos galos logo pela manhãzinha, que ao despique anunciavam o começo de um novo dia, e as vozes das gentes, que cedo se iam movimentando na povoação e nos campos em volta, eram sons que ecoavam pelo ar leve e fresco das manhãs. Os jogos de cartas na sala de jantar com as suas janelas de guilhotina e caixilhos de madeira pintados de vermelho debruçadas sobre o vale onde corre o Rio Douro e por onde se espreita o Marão na outra margem. Jogos em que ia participando a família quase toda nas tardes mornas quando, já mais velhos, pouco mais havia para fazer, para além de conversar, ler algum livro ou ir dar um passeio a pé pela berma da estrada. O som cadenciado do sino da capela da aldeia que marcava as horas e as meias, mesmo por cima das nossas cabeças. O som da buzina e a música estridente e intermitente dos altifalantes que rompiam o sossego da terra e anunciavam a chegada da carrinha dos frangos, mesmo quando ainda vinha longe, e ia passando ao longo da estrada percorrendo os montes que ia torneando devagar. Os foguetes, cujos estalidos ecoavam através dos montes e vales nos dias de festa, ou que anunciavam mais uma romaria festejando a devoção a mais um santo ou Senhora, padroeiros das inúmeras capelinhas e igrejas das redondezas. A passagem pela venda da aldeia, com a sua atmosfera meio obscura e o seu balcão de madeira gasto e corrido, para fazer algum recado ou dar dois dedos de conversa. Os cumprimentos gentis das gentes com que nos cruzávamos quando subíamos ou descíamos a íngreme ladeira que ia dar à casa ou passeávamos ao longo da estrada apanhando as amoras silvestres que ninguém queria mas faziam as nossas delícias. A porta sempre aberta para quem viesse, pois era ofensa manter fechada… Um sem número de cheiros, sons, vivências e lembranças que ficaram gravados na nossa memória dos dias de férias vividos naquela aldeia encarrapitada numa das inúmeras encostas do Douro em tempo de Verão.

O tempo passou. Hoje, é só uma amálgama de boas lembranças e gratas emoções. Emoções como a saudade de um tempo que já não volta numa terra que continua aninhada no monte à espera de que outros a descubram, agora, possivelmente, com outros sons, outros cheiros e outros sabores, mas a mesma paisagem... 




 A capela do povoado à beira da estrada



terça-feira, 9 de outubro de 2018

DOURO - UMA TERRA EM SOCALCOS, VERDE E GRANITO: O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO











O Marão é uma presença agreste mas bela que acompanha a paisagem de parte das terras altas e produtivas do Douro…



De dia, vêem-se as pás gigantes das enormes torres eólicas que, lá no alto, vão girando a ritmos variados consoante os ventos que sopram no cimo da Serra, numa manifestação pacífica das novas tecnologias; enquanto que, um casario que se vai espraiando encosta acima em aglomerados mais ou menos dispersos, surpreende pelo facto de ser muito difícil encontrar zonas planas de maior área em qualquer ponto da parte ocupada pelo Homem, para onde quer que olhemos.  



De noite, até cerca das dez horas em que ainda estão acesas a maioria das luzes das casas que se espalham até onde a vista alcança, podemos deliciar-nos com a calma que paira no ar e aqueles inúmeros pontos luminosos que mais parecem um presépio feito de luzes.


Pequenos presépios parecem também as pequenas aldeias e lugares que se encavalitam monte acima, perdidos entre diversas árvores de fruto, cerejeiras, oliveiras, castanheiros e pinheiros, bem como nas suas latadas de videiras ou nos socalcos de vinha que rasgam as encostas bastante íngremes.


Porém, a presença de casas que hoje se encontram ao abandono, são vestígios de outros tempos em que as gentes permaneciam nos campos, antes de emigrarem para as cidades ou para o estrangeiro. Muitos dos filhos da terra partiram em busca de melhores vidas. Vidas menos duras do que a do trabalho do campo desta terra tão generosa mas tão difícil de cuidar.





Ainda assim, novas gentes têm vindo para estas terras acidentadas procurando tirar delas o melhor partido possível. Uma das potenciais fontes de riqueza, para além de uma lavoura um pouco mais modernizada, sobretudo no que respeita à vinha, será possivelmente o turismo. Velhas casas solarengas têm sido restauradas para receber possíveis visitantes; rotas turísticas como a do Românico, no Norte de Portugal, que também incluem esta zona, permitem duma forma mais organizada dar a conhecer mosteiros, igrejas e memoriais, pontes, castelos e torres que têm em comum a arquitetura românica característica desta região; a par disso, as provas de vinhos que se vão fazendo nas maiores casas da região estão a tornar-se moda.



Mas as tradições ainda se fazem sentir, é assim que capelas e igrejas vão fazendo soar as trindades em fim de tarde através dos montes e vales e são ponto de encontro em dia de missa, feriados e nas romarias que se vão sucedendo ao longo dos meses mais quentes mesmo junto à estrada, onde participam gentes da terra e aqueles que partiram para mais ou menos longe, mas que retornam periodicamente para matarem saudades das suas origens.




Descendo das terras altas, vamos ao encontro do Rio Douro que acompanha este vale como uma fita azul que torna verdejante e bela esta parte da região. Ao fundo vê-se o Peso da Régua, cidade que hoje é bastante rica em oferta hoteleira e é ponto de paragem dos barcos turísticos que sobem e descem o Rio Douro em busca da beleza impar e exemplo do esforço humano que são estas terras do Vale do Douro.


As grandes casas de lavoura junto à Régua acompanham os caprichos dos montes nas sua curvas e contracurvas vestindo-os com os seus vinhedos em fiadas bem alinhadas que aproveitam qualquer palmo desta terra tão generosa para produzir o Vinho do Porto apreciado em todo o Mundo.
   

O Douro!... É assim que partimos destas terras que foram dos nossos bisavós, avós e pais. Sabemos que, embora só cá possamos voltar de visita, foram terras de gente rija, gente de palavra e trabalhadora, amante dum mar verde e ondulado que irá ter continuação nas novas gerações que para cá vêm com novas armas e ideias de como viver numa terra que ainda tem tanto para dar…


(…)

"Oh! Douro-Poema, Homem-Menino
Se soubesses quanta vida me dás!
Em ti, nenhum sonho é pequenino
Minha alma jamais olha p’ra trás!"


(…)



Excerto de um poema de Teresa Teixeira e Jéssica Neves




Para nós, ficam a lembrança e a saudade dos tempos que foram bons e valeram tanto a pena!




segunda-feira, 1 de outubro de 2018

DOURO - AS GERAÇÕES VÃO PASSANDO MAS A BELEZA DESTAS TERRAS PERMANECE





Deixámos para trás aquelas paisagens que enchem o olhar de beleza e o coração de saudade de um tempo que ficará para sempre gravado na nossa memória. É uma subida ingreme e esforçada para aquele sonho de menino. Era ali que um dia desejava vir a construir uma casa. O tempo passou e o sonho tornou-se realidade. É ainda a sua casa de férias... a casa do Douro. Uma casa rústica e simples com uma paisagem deslumbrante.




Daqui, do lado a sul do rio, vislumbra-se um Marão alcantilado, imponente e belo recortado no horizonte da margem direita em direcção ao Norte… Ao fundo, no vale, vêem-se o rio e os comboios que vão passando espaçadamente junto ao rio Douro ligando a Régua ao Porto, bem como os barcos que trazem turistas para visitar este mundo da lavoura e, sobretudo, das cerejeiras, oliveiras, castanheiros e vinhedos. Vinhedos esses bem tratados  que desfilam em terras de acesso difícil onde o Homem reforça a sua presença nos socalcos arrancados às encostas dos montes duma forma geométrica aparentemente impossível. 




As lembranças de nós, dos avós, pais, tios e primos que por estas terras andaram em alturas de férias de outros tempos, vêm-nos à memória. Viemos meninos, convivemos com as gentes da terra que eram gentes hospitaleiras. Gentes que se conheciam todas. Gentes que tinham as suas rotinas e os seus trabalhos interrompidos de bom grado por quem vinha de passagem e férias saborear o que de bom a terra tem para dar. Gentes que tinham o tempo todo do mundo, para além das exigências dos trabalhos do campo. Gentes que se juntavam no átrio da pequena capela à beira da estrada nos momentos de lazer ou nos Domingos soalheiros para ver quem passava e dar dois dedos de conversa. Muitos já morreram, muitos partiram para outras paragens, poucos ficaram.





A estrada continua perigosa com as suas curvas e contra curvas roubadas aos montes e as suas bermas estreitas. Mas, a velocidade e descontração dos automobilistas que se aventuram por ela, não impedem ainda hoje as gentes da terra de se deslocarem a pé de lugar para lugar, tal como nós o fazíamos de cajado na mão para se visitar o Avô em Covelas, a Enxertada, ou S. João de Fontoura, ou a prima Aura no Estremadouro, ou a venda da Massorra…, enquanto se apanhavam as gordas e negras amoras silvestres que pendiam das silvas que ladeavam a estrada ou nos refrescávamos na fonte de águas puras que, então, se podiam beber. Ao longo da estrada, muitas casas decrépitas deixam adivinhar outros tempos de vida e movimento naqueles montes que se vão sucedendo uns aos outros. No entanto, lugares como as Castanheiras ou Rendufe permanecem na mesma, com as suas casas senhoriais bem preservadas, debruçadas sobre os montes que descem para o vale e ladeando a estrada principal por onde se passa. São casas de granito, paredes caiadas, muros de pedra, portões de ferro trabalhado que parecem seguras do seu passado e esperançadas no seu futuro. Para além de que novas vinhas e novas casas vão aparecendo, estas ainda sem história mas projecto de novas vidas que aqui se irão enraizar, ainda que seja como casas de campo, de fim de semana ou de fim de uma vida de trabalho para quem de longe vem de emigrado.





O horizonte é salpicado de casario que, ao estar iluminado à noite, mais se assemelha a um presépio. Ao entardecer, o Sol despede-se como uma mancha vermelha de fogo que encima o cume de montes e serras, deixando atrás de si um manto de neblina e cinza que se vai tornado negro enquanto que os pontos de luz vão aparecendo dispersos revelando a presença humana em locais que de outra forma a vista não alcançaria.




Lá no fundo, o sino da Igreja da Senhora da Guia, em S. João de Fontoura, faz-se ouvir por vales e montes. Ecoa no manso da tarde e acentua o sentimento nostálgico de tranquilidade e bem estar de quem se senta na varanda da casa, para saborear os últimos momentos de um espaço que hoje já vai fazendo parte da nossa história de família. Mesmo que nós tenhamos vindo só para gozo de férias ao longo dos anos, somos mais uns a partir desta terra generosa com alguma saudade dos tempos que ali vivemos. Novas gentes virão que, como nós, poderão vir a saborear a beleza da paisagem e a viver uma nova história que atravesse gerações nesta acidentada e bonita terra do norte de Portugal que é banhada pelo Rio Douro.






(Fotografias tiradas em Setembro de 2018)




DOURO - CALDAS DE AREGOS - UMA PARAGEM NO TEMPO OU NOVOS RUMOS?!...




Manhã cedo ainda se faz sentir a frescura da noite para o começo de um dia que se adivinha quente. Setembro está acabar, mas o Verão tardio ainda se faz sentir.


Caldas de Aregos é uma vila que teve os seus tempos áureos no século XX, anos 40, quando as suas termas eram chamariz de gentes que vinham em busca de tratamentos sobretudo para o reumático. Foi assim durante anos com a avó do meu pai e tantas outras gentes que, das redondezas ou de longe (até mesmo do estrangeiro), para lá se deslocavam para ir a banhos nas águas "milagrosas" das termas. A minha bisavó fez parte dos utentes habituais das Caldas que para lá se dirigiam por períodos compreendidos entre os meses de Maio e Outubro. No entanto, a história das termas remonta ao século XII, altura em que a Rainha D. Mafalda aí criou uma albergaria para tratamento de várias doenças.




Com a construção da Barragem do Carrapatelo e Invernos rigorosos a estância termal fechou no final dos anos 70. Mais tarde, em 1992, foi construído o actual balneário. Em 2009 o município adquiriu as termas das Caldas de Aregos e parte importante do seu património com o objectivo de impulsionar as dinâmicas necessárias para transformar as Caldas de Aregos num destino atractivo para o investimento privado e num destino turístico de excelência.

Consegue-se ver hoje em dia esse esforço, sobretudo com a marina resguardada na margem do rio de onde partem barcos de recreio e turísticos para passeios neste troço do rio Douro aconchegado por uma paisagem paradisíaca.







Porém, não há grande oferta para nos instalarmos neste recanto do Rio Douro. Mas, o  Douro Marina Hotel e Spa é uma opção de qualidade, onde as instalações remodeladas são agradáveis assim como o atendimento do seu pessoal simpático e atencioso.


No entanto, mesmo ao seu lado, ainda estão por recuperar vestígios dos tempos áureos deste lugar tão apreciado em várias épocas da sua história. Caldas de Aregos é um local que querem voltar a reactivar, apesar da estrada de acesso ser pouco fácil, mas que ainda assim não ficará demasiado longe do Porto. 




Quem sabe o seu futuro possa não passar apenas pelas suas águas termais mas também pela sua localização duma beleza sem par junto a um Douro que oferece as suas águas para passeios inesquecíveis nesta zona acidentada e tão bela a norte de Portugal.






(Fotos tiradas em Setembro de 2018)